Em meio à oferta curta e preços altos, especialistas defendem assistência técnica, crédito e tecnologia para acelerar ganhos de produtividade na cacauicultura brasileira.
A agenda da cacauicultura no Brasil, neste mês de agosto de 2025, convergiu para um ponto: sem aumentar produtividade na lavoura, a renda do produtor continuará pressionada pelo desequilíbrio entre a oferta doméstica e a demanda da indústria. O pano de fundo é a combinação de safra interna fraca e preços internacionais em patamar historicamente elevado, o que levou a indústria a reduzir o ritmo de moagem e a recorrer mais às importações de amêndoas.
Importações em alta, moagem em baixa
Nos primeiros meses de 2025, a indústria processadora registrou queda na moagem de cacau, reflexo direto da menor disponibilidade interna de matéria-prima. Para cobrir o buraco, as importações de amêndoas avançaram com força, evidenciando a dependência do mercado externo e o custo adicional para a cadeia.
Gargalos no campo: Bahia e Pará sentiram a pressão
Os dois maiores polos do país, Bahia e Pará, reduziram as entregas de amêndoas à indústria em 2024, e a normalização ainda não se consolidou em 2025. O recuo das entregas, somado ao avanço dos custos, limita o caixa do produtor e a capacidade de investimento nos tratos culturais — um círculo que só se rompe com salto de produtividade por hectare.
O que muda com foco em produtividade
A agenda prioritária inclui assistência técnica contínua, manejo adequado, adubação equilibrada, renovação de áreas com materiais genéticos superiores (clones), irrigação onde fizer sentido e boas práticas trabalhistas e ambientais. Iniciativas setoriais mostram que, quando essas frentes caminham juntas, a renda do produtor sobe e a resiliência da atividade melhora. Programas como o CocoaAction Brasil e o Cargill Cocoa Promise apontam resultados com capacitação, governança e difusão tecnológica em diferentes regiões produtoras.
Bahia em destaque e oportunidades no Recôncavo
A Bahia reforçou, recentemente, sua liderança nas exportações de derivados e vê espaço para agregar valor com qualidade e certificações — oportunidade que alcança cadeias locais no Recôncavo e entorno, com efeitos sobre emprego e renda. Para capturar esse potencial, produtividade e regularidade de entrega são condições essenciais para acessar contratos melhores e construir relações de longo prazo com a indústria.
Perspectiva: autossuficiência exige escala e constância
Projeções apontam que o Brasil pode se aproximar de 300 mil toneladas neste ano, e há metas públicas e privadas para alcançar patamares ainda maiores até 2030. Mas a autossuficiência só virá com ganho consistente de produtividade média, difusão de tecnologia e financiamento adequado para a renovação de pomares.
Por que isso importa agora
Com a demanda por chocolates premium e de origem em expansão, quem conseguir produzir mais e melhor — com rastreabilidade e boas práticas — tende a negociar preços superiores e contratos mais estáveis. Ao produtor, o recado é claro: produtividade deixou de ser uma ambição técnica e virou a variável central de renda na cacauicultura brasileira.